Eu comecei a escrever esse texto algumas vezes e honestamente eu não faço ideia de como fazê-lo. Tem tantas coisas que eu gostaria de dizer, mas estou com grande dificuldade de organizar essas ideias. Vamos lá, foda-se.

Dia 29 de Agosto fará 6 anos que iniciei o projeto Téo Me Why. O que pouca gente sabe é que o nome original do canal era “teodoroc”, login do meu usuário Hana SQL. Pois é, criatividade nunca foi o meu forte. Mas lá estava eu, fazendo live para 19 pessoas em meu primeiro dia, após algumas divulgações no LinkedIn. A ideia era simples: “vamos compartilhar o que é trabalhar com Data Science, sem jupyter notebooks com códigos prontos, sem exemplos de brinquedo do Kaggle. Vamos mostrar a vida real”. Durante os próximos meses, minha média de visualizações eram de 3 bots por live. Mas eu estava lá, escrevendo código ao vivo! Nem imaginava que chagaríamos até aqui, onde hoje posso trabalhar exclusivamente com isso.

Talvez seja sobre isso que se trata esse texto. Sobre como viver de conteúdo na internet, como chegamos até aqui e o que está por vir.

Quando a missão secundária se torna principal?

Eu nunca soube o que queria da vida, pensando em carreira. Não sei onde quero chegar como pessoa. Muito diferente de algumas pessoas que sabem o que querem fazer desde cedo, eu ainda estou me descobrindo. Não faço ideia do que estarei fazendo daqui a alguns anos. O que tenho é mais ou menos uma ideia do que sou bom, ou melhor, do que sou suficientemente bom. Como a grande maioria das pessoas no Brasil, nem tenho tempo para pensar sobre essas coisas. Minha prioridade sempre foi trazer sustento para casa, minha família.

Foi só então, junto a comunidade de dados, com ela crescendo, pensei: “poxa, talvez isso possa dar certo. Parece que as pessoas gostam do que eu faço e da forma como ajudo elas”. Mas como fazer isso dar certo assumindo a premissa de que a parada tem que ser:

  • gratuita
  • de alta qualidade
  • aderente ao mercado de trabalho
  • libertadora

Com essa clareza imaginei que houvesse necessidade de duas coisas acontecerem em conjunto para isso dar certo:

  1. liberdade financeira: enquanto estiver no mercado de trabalho, sendo bem reconhecido pelo que faço, vou juntar recursos suficientes que me ajudem a tomar decisões mais livres no futuro. Isto se resume a poupar o máximo possível e investir.

  2. crescer a comunidade: não adianta ter recursos financeiros, se não tiver construído uma comunidade de longo prazo. Coisas grandes não são construídas do dia para noite, leva tempo.

Ou seja, enquanto estava no mercado de trabalho sustentando minha família e contando moedas, o trabalho com o Téo Me Why era constante para que nossa comunidade ganhasse força, maturidade e união. As pessoas precisam conhecer o que fazemos e como fazemos.

Essa dinâmica durou por volta de 4 a 5 anos. O estalo veio quando me vi há 4 meses sem abrir live. Para mim estava claro que não estava dando certo. Não seria assim que conseguiria ajudar mais pessoas com o que sei fazer. Chegou o momento de saltar de um barco para outro.

Sendo o responsável pela renda familiar, seria irresponsabilidade tomar essa decisão sozinho. Ainda que tivéssemos que abrir mão de um sono (como da casa própria), entendemos juntos que é o que faria mais sentido.

Sem emprego, com plano de saúde de 3 pessoas, e todas contas de casa para pagar, passei a me dedicar exclusivamente ao Téo Me Why. Vivendo um sonho.

Missão principal atualizada com sucesso: emancipar o conhecimento na área de dados.

Papel da comunidade

É extremamente custoso fazer com que as pessoas entendam que isso não é um negócio. Não temos pitch de vendas, não temos tráfego pago, não temos um produto, não temos uma promessa.

Ao mesmo tempo, não é uma iniciativa do terceiro setor. Tenho meus objetivos e necessidades financeiras, onde busco ficar em dia com elas.

Ou seja, não colocamos o lucro como prioridade, ao mesmo tempo que precisamos ser viáveis financeiramente, para que eu possa continuar sustentando minha família e crescendo nossa iniciativa com coisas cada vez mais legais.

Como então isso funciona? Aí que entra a palavra-chave: comunidade.

A comunidade aguenta muita coisa. Nosso projeto é para a comunidade, em que acontece uma troca honesta de “eu ensino o que sei” e “cada um contribui com o que pode”.

  • Eu posso contribuir assistindo as lives;
  • Eu posso contribuir com uma assinatura no YouTube;
  • Eu posso contribuir com R$2,50 no livepix;
  • Eu posso contribuir curtindo os posts;
  • Eu posso contribuir com doação de assinatura na Twitch;
  • Eu posso contribuir compartilhando na minha faculdade e trabalho;
  • Eu posso contribuir com R$1.000 esse mês;
  • Eu posso contribuir ajudando quem está com dúvidas sobre o curso;

Se houvesse uma maneira de trocar a palavra “comunidade” por um verbo, seria “contribuir”. Para mim, essa é a essência do que buscamos fazer. Eu contribuo compartilhando o que eu sei, de forma aberta, gratuita (e mesmo os conteúdos exclusivos, de forma acessível), e a comunidade contribui com o que pode.

Para deixar isso ainda mais claro, todas essas contribuições são bem-vindas, todas as pessoas podem participar ajudando da maneira que puderem. Ninguém é cobrado por isso.

Meu desejo é que a gente entregue um material tão bom, mas tão bom, que as pessoas que podem contribuir financeiramente, olhem para isso e pensem: “caralho, isso aqui pode ajudar muita gente. Deixa eu incentivar esse moleque a continuar fazendo esse trampo que custa muita grana em cursos pagos ou em universidades”. Ou seja, quem pode realmente ajudar, está financiando o acesso à informação de quem não pode.

Claro que o papel da comunidade vai muito além. Sem ouvi-la, dificilmente teríamos chego tão longe. É de extrema importância entender quem está conosco, quais as necessidades, quais os anseios, como podemos ajudar. Não estou falando só de material didático que produzo, mas sim, de pessoas para conversar, dados abertos para estudos de caso, livros, e muito mais.

A comunidade é uma bússola que me orienta, mesmo durante tempestades. Hoje, sou líder deste navio, e quem está a bordo, deve sim, estar alinhado com os nossos valores e orientação. É comum acreditar que a comunidade pode ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa e ser de todo mundo. Não é assim que encaro o que estamos construindo em conjunto.

É preciso ter um direcionamento claro de valores, cultura e atividade. Por exemplo, não vamos fazer aulas de balé ao vivo, da mesma forma que não vamos vender cursos em 12x, ou aceitar comentários discriminatórios. Nossa orientação é a emancipação do conhecimento, transformando vidas por meio do ensino. Eu sou o principal responsável e guardião para que isso ecoe na comunidade, sendo reflexo de minhas ações. Luto e continuarei lutando para que não isso não se perca, além de garantir que forças externas não nos distancie desse ideal que estamos construindo.

O impacto da comunidade

Não consigo pensar em um exemplo melhor do que o que vivemos há exatamente um ano. Precisei trocar de computador para continuar fazendo lives e rodando alguns processamentos de dados. Um valor de investimento considerável, para quem vive de internet. Logo depois de pagar o pix, pensei: e se eu abrir uma vaquinha? Qualquer valor que eu receber de contribuição ajudará, uma vez que o gasto já foi realizado.

No mesmo dia, recebi inúmeras notificações e prints em diferentes redes sociais. Pessoas que admiram meu trabalho me ligaram perguntando se eu estava bem. O motivo? Uma pessoa postou em seu perfil no LinkedIn, um texto debochando da nossa vaquinha e questionando a relevância e qualidade de nosso trabalho. Afinal, quem não tem grana para trocar de computador, deveria ser reconhecido como um bom profissional e exemplo a se seguir?

Meu direcionamento para toda comunidade foi bem claro: não hajam por impulso, não interajam, só ignorem. A comunidade respondeu da melhor maneira possível.

Em menos de 48 horas, arrecadamos R$14.160,00, quase 3x a meta inicial. Com esse dinheiro pudemos adicionar uma nova placa de vídeo e ainda doar R$2.000 restantes para a iniciativa Mulheres em Dados.

Ainda me emociono ao lembrar disso.

Ironicamente, nosso objetivo é uma educação libertadora, mas a comunidade é quem me libertou. Esse tipo de sentimento, é algo inexplicável. É como se eu fosse capaz de fazer qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa. Não no sentido de ser invencível, mas de que eu tenho escolha, tenho escolha de poder fazer algo, porque tem pessoas acreditando em mim e no projeto.

Esse caso da vaquinha, embora mais marcante, não diminui em nada todos os apoios recorrentes que temos, mês a mês com nossa iniciativa, os motores continuarem funcionando para que mais pessoas possam aprender de forma acessível. Muito obrigado por continuarem acreditando e tankarem junto comigo imprevistos como esses.

Conquistas da comunidade

É impossível encerrar este texto, sem elencar algumas conquistas significativas que tivemos no último ano, enquanto comunidade.

Twitch Partner

Graças ao engajamento constante de nossa comunidade, fomos reconhecidos como Parceiros da Twitch. Uma conquista significativa para todas pessoas que realizam lives na plataforma, motivo do orgulho em ter nossa comunidade entre os TOP 0,5% streamers da plataforma.

GeForce Partner

Com nosso entusiasmo e lives recorrentes para educação na área de dados e presença da comunidade, chamamos a atenção da maior empresa do mundo, Nvidia. É simplesmente espetacular receber o apoio de uma empresa deste porte em uma iniciativa que luta para que mais pessoas tenham acesso à área de dados e tecnologia. Com isso, tivemos a chance de criar conteúdo realizando processamento de dados em GPU.

GitHub Star

Mais recentemente, fomos nomeados pelo GitHub como uma das 78 pessoas ao redor do mundo que inspiram e educam a comunidade open-source. Com base nos diferentes projetos abertos que divulgamos no GitHub, bem como dados abertos no Kaggle e treinamentos gratuitos no YouTube, recebemos com muito orgulho esse reconhecimento da maior plataforma de código aberto do mundo.

Próximos passos

Nossa luta pela emancipação do conhecimento continua viva. Meu desejo é estar mais presente fisicamente, participando de eventos e comunidade locais. Em 2025 tivemos a chance de participar de vários e a recepção foi incrível, é algo que quero cultivar ainda mais.

Além dos cursos ao vivo em formato de lives, tenho grande interesse em participar de coletivos de minorias levando conhecimento em formato de cursos. Fizemos algo assim em 2022, rodando um curso de SQL presencial no Quinto Andar (com apoio fantástico), focando em pessoas em situação de vulnerabilidade social. Seria incrível me aproximar de comunidades como Mulheres em Dados, ajudando a disseminar conhecimento para grupos minoritários. Contem comigo.

Por fim, nosso trabalho ao vivo continua. Teremos muitos projetos reais para construir em conjunto e mantemos nossas lives diárias.

Agradecimentos

Como já dito, nada disso seria possível sem o apoio da comunidade. Hoje, somando as diferentes formas de apoio, temos por volta de 2.500 pessoas apoiando financeiramente o nosso projeto. Vocês são importantes demais para que tudo isso continue funcionando e possamos ajudar os outros 99% que ainda não podem nos apoiar. Obrigado por acreditarem nessa loucura.

Em especial, gostaria de agradecer o Daniel Romero. Como pessoa física, já apoiou o nosso canal mais do que qualquer outro patrocinador com CNPJ. A única contrapartida foi: “continue com o bom trabalho”. É admirável que exista alguém que entenda tão profundamente o que estamos fazendo e sustente essa ideia.

Não posso deixar de lembrar nossos principais patrocinadores durante essa jornada, que foram sempre selecionados pensando no alinhamento com a comunidade:

  • Erathos: Ferramenta Plug & Play para ingestão de APIs terceiras;
  • ExitLag: Conexão otimizada para reduzir o seu lag;
  • ASN.Rocks: Escola referência em Analytics onde tenho o prazer de fazer parte do corpo docente;
  • Stack-Tencologias: Consultoria para criação de parque analítico Big Data, Machine Learning e IA;
  • Briefer: plataforma e ferramenta de BI, recém adquirida pela Resend, que infelizmente será descontinuada;

Obrigado por confiarem a imagem da marca de vocês ao nosso projeto, espero vê-los em breve para novas parcerias

Considerações Finais

Ainda não sei se consegui expressar tudo que eu estava sentindo e queria que você soubesse. Por vezes, é difícil colocar em palavras alguns sentimentos. Mas saiba que eu continuo acreditando no nosso trabalho de formiguinha, ainda que tantas pedras de diferentes tamanhos apareçam no nosso caminho para desviarmos.

De alguma forma, sem saber o que quero da vida, estamos chegando em algum lugar. De alguma forma, sinto que estamos avançando. E é isso que importa.

Na verdade, dificilmente mesmo e acreditar que chegamos tão longe. Ainda me impressiono.